Os sete dons do Espírito Santo na tradição açoriana
"Os dons do Espírito Santo são sete, e são sete porque assim é mesmo: um número que vem dos antigos, como as sete partidas do Mundo ou os sete dias da semana." Quem falava assim, em 1996, era Gregório Machado Barcelos, lavrador octogenário da ilha Terceira, ao responder ao folclorista José Orlando Breto.
O depoimento, recolhido "junto do povo simples do campo", é uma joia da cultura açoriana: mostra como a doutrina dos sete dons — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus — foi absorvida e recontada pela voz do povo.
Sabedoria e entendimento: a luz e a paz
Para o lavrador terceirense, o primeiro dom é o da sabedoria, "o dom da inteligência e da luz". São os apóstolos que "estavam muito atoleimados e cheios de cagança", até que "veio o Divino que botou o lume nas cabeças deles e eles ficaram mais espertinhos" — a memória viva do Pentecostes, com suas línguas de fogo.
O segundo dom, o do entendimento, "está muito ligado ao outro, mas aqui quer dizer mais a amizade, o entendimento, a paz entre os homens". E vem a regra prática: "o Senhor Espírito Santo não é de guerras, e quem tiver pitafe dum vizinho deve fazer logo as pazes, que é para ser atendido".
Conselho, fortaleza e a pomba
O terceiro dom é o do conselho: "o Espírito Santo nos ilumina e indica o caminho. É a luz, o sopro, ou seja, o espírito. É por isso que tem a forma de uma pomba, porque tudo o que cria é amor e carinho". A pomba, símbolo do Divino, aparece aqui não como dogma, mas como ternura.
O quarto dom, o da fortaleza, "vem amparar a nossa natural fraqueza: com este dom a gente dá testemunho público, não temos medo". É o dom que sustenta os imperadores, os mordomos e os foliões quando coroam, servem e testemunham diante de toda a freguesia.
| Dom | Na voz da tradição popular |
|---|---|
| Sabedoria | "O dom da inteligência e da luz": o fogo do Pentecostes que esclarece os apóstolos |
| Entendimento | "A amizade, a paz entre os homens": fazer as pazes com o vizinho antes da festa |
| Conselho | "Ilumina e indica o caminho": o sopro que tem forma de pomba |
| Fortaleza | "Ampara a nossa natural fraqueza": dar testemunho público sem medo |
| Ciência | Conhecer as coisas de Deus e do mundo com o coração aberto |
| Piedade | A ternura para com os pobres e os que sofrem, feita esmola e partilha |
| Temor de Deus | O respeito que guarda as promessas feitas ao Divino |
Ciência, piedade e temor de Deus
Os três dons que completam o número sagrado fecham o círculo da festa. A ciência ensina a conhecer; a piedade converte o conhecimento em caridade — a esmola e a sopa distribuída aos mais necessitados; o temor de Deus lembra que promessa feita ao Divino não se regateia.
- Os dons são lembrados nas coroações e nas novenas que antecedem o Pentecostes.
- A pomba, coroada ou esmaltada, decora coroas, cetros e bandeiras dos impérios.
- O número sete organiza também o calendário: são as sete semanas entre a Páscoa e o Pentecostes.
Um número que vem dos antigos
"Não vale a pena estar a aprofundar muito, porque não se chega a lado nenhum e só complica", ria-se o velho lavrador. Talvez aí esteja a maior sabedoria: na tradição do Divino, os dons não são matéria de tratado, mas de vida — pão repartido, pazes feitas, promessa cumprida.