A origem do culto do Divino Espírito Santo
Todos os anos, entre a Páscoa e o Pentecostes, as nove ilhas dos Açores se enchem de coroas de prata, bandeiras vermelhas e mesas postas para quem tiver fome. É a festa do Divino Espírito Santo, a maior expressão religiosa e cultural do arquipélago — e uma das tradições portuguesas mais antigas ainda vivas em 2026.
Mas de onde vem esse culto que atravessou séculos, oceanos e até a desconfiança da própria Igreja? A resposta passa por um monge visionário da Calábria, uma rainha santa e um rei poeta de Portugal.
Joaquim de Fiore e a "era do Espírito Santo"
No século XII, o abade cisterciense Joaquim de Fiore (1135–1202) propôs uma visão ousada da história: depois da era do Pai (Antigo Testamento) e da era do Filho (a Igreja de Cristo), viria a era do Espírito Santo — um tempo de paz, fraternidade e igualdade entre os homens.
A doutrina, conhecida como joaquinismo, foi condenada por Roma, mas caiu no gosto popular. Grupos franciscanos espirituais viram nela a promessa de uma Igreja pobre e evangélica, e o tema da "terceira idade" espalhou-se pela Europa medieval.
A Rainha Santa Isabel e Dom Dinis
Foi por Isabel de Aragão (1271–1336), esposa do rei Dom Dinis, que o culto ao Espírito Santo entrou em Portugal. A rainha, ligada ao místico Arnaldo de Vilanova e às correntes espirituais do franciscanismo, fez do Divino a sua devoção maior.
A tradição conta que Isabel instituiu a festa em agradecimento pela chegada de navios carregados de trigo durante uma grande fome — e que coroou um pobre com a coroa do Império, gesto que deu origem à "imperada" que ainda hoje se repete.
- Dom Dinis apoiou a construção de capelas e hospitais dedicados ao Espírito Santo por todo o reino.
- O culto era ao mesmo tempo religioso e social: partilha de pão, caridade e igualdade simbólica entre ricos e pobres.
- A coroa, o cetro e a pomba tornaram-se os sinais visíveis da soberania do Divino.

Dos Açores para o mundo
Quando os primeiros povoadores chegaram aos Açores, no século XV, trouxeram o culto com as caravelas — no contexto da ação missionária dos franciscanos. Nas ilhas, a festa encontrou terreno único: comunidades isoladas que precisavam de solidariedade para sobreviver a sismos, vulcões e intempéries.
O culto tornou-se tão popular que foi, em certa medida, imposto ao clero pelo povo — e não o contrário. Documentos citados por historiadores da Universidade de Coimbra registram mais de uma centena de avisos e até condenações da hierarquia às festas dos impérios ao longo de três séculos.
| Período | Marco |
|---|---|
| Séc. XII | Joaquim de Fiore anuncia a "terceira idade", a era do Espírito Santo |
| Séc. XIII–XIV | Rainha Santa Isabel e Dom Dinis introduzem e difundem o culto em Portugal |
| Séc. XV | Primeiros povoadores levam a festa aos Açores com os franciscanos |
| Séc. XVI–XIX | Tensões com a hierarquia; a festa resiste e enraíza-se nas ilhas |
| Séc. XIX–XX | A emigração leva o culto ao Brasil, aos EUA, ao Canadá e ao Havaí |
Por que a festa sobreviveu
A permanência do culto explica-se por fatores simples: a simplicidade do material necessário (uma coroa, uma bandeira, um pequeno império), o apoio dos franciscanos e do clero local, e a necessidade de entendimento entre povoadores de origens diferentes.
Nas ilhas, a festa do Divino funcionou como um pacto comunitário: quem prometia, pagava; quem tinha fartura, partilhava; quem era pobre, sentava-se à mesa como imperador. Foi essa mistura de fé, esmola e festa que atravessou mais de cinco séculos e chegou, intacta no essencial, até nós.