Coroas, cetros e bandeiras: os símbolos do Império
Uma coroa de prata lavrada, um cetro coroado por uma pomba, uma bandeira vermelha ao vento: os símbolos do culto do Divino são os de uma realeza muito particular — a do Espírito Santo, "imperador" de todas as ilhas dos Açores.
Como ensina a tradição, a coroa, o cetro, o bastão, a bandeira, o império e o menino têm a ver com o exercício da soberania e a garantia da justiça, atribuídas ao Espírito Santo. Cada peça tem o seu lugar no cortejo, no altar e na memória das irmandades.
A coroa: soberania em prata
A coroa do Divino é a peça maior da festa. Em prata lavrada, leva no topo a pomba do Espírito Santo e, muitas vezes, placas com as armas da irmandade. Durante o ciclo festivo repousa no altar do império; no dia da coroação, é imposta sobre a cabeça do imperador — ou de um menino, sinal de inocência — diante de toda a assembleia.
Comprar uma coroa é uma saga comunitária. Na Associação Amigos da Ilha das Flores, as receitas de arrematações e de um bazar renderam, "por milagre", exatamente 1.482 euros — a quantia que faltava para a coroa de prata número 11, comprada em Ponta Delgada por 1.700 euros com o desconto de um ourives sensível à causa.

A bandeira e o estandarte
A bandeira do Divino, vermelha com a pomba branca, acompanha os peditórios e os cortejos. Antigamente saía de porta em porta com o carro de bois enfeitado de ramos de faia, recolhendo ofertas da economia familiar: milho, abóboras, feijão, batata-doce, coelhos, galinhas e um cesto de vimes acolchoado de verduras para os ovos.
As insígnias de uma irmandade formam um verdadeiro tesouro. A Irmandade dos Espalhafatos, no Faial, registra o seu: uma coroa, dois estandartes (um da irmandade, outro dos foliões), vinte varas de cor vermelha com barra preta e risca branca, vinte e quatro lampiões, uma bandeira e uma opa vermelha.
| Símbolo | Significado |
|---|---|
| Coroa | A soberania do Espírito Santo, imposta ao imperador no dia da coroação |
| Cetro e pomba | O poder que vem do alto: a pomba é o sinal visível do Paráclito |
| Bandeira vermelha | Anuncia a festa nos peditórios e abre os cortejos das coroações |
| Estandartes e varas | A guarda de honra da irmandade e dos foliões nas procissões |
| Menino imperador | A inocência coroada: o Reino anunciado aos pequenos |
Das mãos do povo
Muitas coroas chegaram às ilhas como ex-votos: a "coroa doada" por quem escapou de um naufrágio, de uma doença, de um sismo. Outras foram pagas, cêntimo a cêntimo, por emigrantes na América que quiseram ver a sua freguesia natal com uma coroa nova.
- As coroas antigas são patrimônio das irmandades e saem apenas nos dias de festa.
- O número da coroa (medida do ourives) é referência de encomenda até hoje.
- Bandeiras e estandartes são benzidos e guardados no império junto ao altar.
Justiça e igualdade
Coroar um pobre, um menino ou o mordomo do ano é inverter a ordem do mundo por um dia: o último passa a ser o primeiro. É essa teologia doméstica, feita de prata, pano vermelho e pão, que mantém os símbolos do Divino tão vivos em 2026 quanto no tempo da Rainha Santa Isabel.