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Bodo e função: a ceia do Divino que alimenta a freguesia

A Festa · Portal do Divino

Há festas que se veem e festas que se ouvem. A festa do Divino, nos Açores, come-se. Sopa do Espírito Santo, cozido, alcatra, massa sovada e vinho: o bodo e a função são a mesa comprida onde a freguesia inteira — e quem mais chegar — se senta como gente da casa.

"Bodo" é o banquete de esmolas; "função", explica o etnógrafo Frederico Lopes, é o conjunto de atos que é obrigado a praticar quem festeja o Espírito Santo — e designa, em especial, o jantar que o imperador oferece no domingo da coroação.

A sopa que alimenta a ilha

A sopa do Espírito Santo é feita com caldo de carne temperado com sal, louro, hortelã, pau de cravo, pimenta e molho de alcatra. Leva pão cortado à faca em grossos nacos e folhas de repolho. Cozinha-se em grandes caldeirões, ao ar livre, sobre trempes de ferro ou simples pedras, junto a uma parede que desvie o lume do vento.

Serve-se em grandes tigelas de loiça de barro — primeiro aos pobres e aos irmãos, depois a todos. Na Ribeira Grande, em São Miguel, a câmara municipal distribuiu num só dia 1.500 sopas: 200 quilos de carne, 50 de chouriço, 180 repolhos, 125 pães e 125 bolos de massa sovada.

Caldeirões de sopa do Espírito Santo ao ar livre
As sopas cozinham ao ar livre, em caldeirões sobre o lume.

Cozido, alcatra e o ritual dos foliões

Depois da sopa vem o cozido: grandes postas de carne de vaca, galinha (uma para cada panelão), sangue, fígado, toucinho, repolho aos quartos e, por vezes, batatas. E a alcatra, prato emblemático da ilha Terceira: carne passada com sal e vinho branco no "alguidar da alcatra", com toucinho defumado, banha, cebola, alho, pimenta e baga de cravo, a cozer lentamente no forno.

Antigamente, a função obedecia a um ritual rigoroso sob as ordens dos foliões, que presidiam à cerimônia: nada se fazia ou servia sem eles mandarem — desde pôr a mesa e distribuir os lugares até ao "brindar a mesa", quando um prato com um copo de vinho passava por todos os comensais, cada qual bebendo à saúde dos donos da casa e deitando no prato uma moeda, a "esmola dos foliões".

PratoComo se faz
Sopa do Espírito SantoCaldo de carne, hortelã, cravo e pão em nacos, cozinhada em caldeirões ao ar livre
CozidoVaca, galinha, sangue, toucinho e repolho aos quartos, servido em abundância
AlcatraCarne com vinho branco, alho e cravo, cozida no forno em alguidar de barro
Massa sovadaPão doce amassado à mão, assado em formas redondas, parte da trilogia da esmola
Arroz doceO fecho da ceia, polvilhado de canela, presente nos jantares das irmandades

Carne, pão e vinho: a trilogia da esmola

No sábado de bodo, após a cerimônia da descoroação, faz-se a bênção e a distribuição das ofertas pelos mais necessitados: carne, pão e vinho dispostos sobre mesas estreitas ou bancos de madeira ao longo da rua do império. À porta, as arrematações das promessas — um bezerro, um coelho, uma rosquilha de massa sovada — revertem a favor da festa.

  • O bodo corre as freguesias em domingos sucessivos: primeiro bodo, bodo da Trindade, bodo de São Pedro.
  • "Correr bodos" é visitar os impérios e as despensas, provando o pão e o vinho de cada um.
  • A função é paga pelo imperador do ano, muitas vezes em cumprimento de uma promessa.

Mais do que comida

No bodo, comer é um ato religioso e cívico. Partilhar a sopa com o vizinho e com o desconhecido é a forma mais antiga de dizer o que a festa significa: no reino do Divino, ninguém sai da mesa com fome.

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