A diáspora do Divino: do Rio Grande do Sul ao Havaí
A festa do Divino não ficou nas ilhas. Seguiu os emigrantes açorianos para o Rio Grande do Sul, para a Nova Inglaterra e a Califórnia, para o Canadá e o Havaí — e em cada porto plantou um império, uma coroa e uma mesa posta.
"Com uma existência nos Açores de mais de cinco séculos, a Festa do Divino Espírito Santo continua a imprimir a alma dos açorianos, reunindo-os, como hoje, na diáspora, em número tão expressivo", lembrou D. Tomaz, bispo auxiliar, numa homilia da festa celebrada nos Estados Unidos.
Rio Grande do Sul: o Brasil açoriano
Em Ijuí, no noroeste gaúcho, a Irmandade do Divino Espírito Santo do Centro Cultural Português mantém viva a ligação com a ilha do Pico. Ivan Vieira Paim e Jamila Beus Paim, netos do picoense Nestor Cardoso Paim, viajaram à Terceira para apresentar, no III Congresso Internacional das Festas do Divino, a palestra "Impérios do Pico e comunidade açoriana de Ijuí unidos pelo Espírito Santo".
O caso de Ijuí é emblemático: o culto chegou com os casais açorianos do século XVIII e misturou-se com a alma missioneira do Rio Grande, gerando festas que hoje são patrimônio afetivo de toda a região — coronha de missa, esmolas, leilões de ofertas e sopas servidas à portuguesa.
Estados Unidos, Canadá e Havaí
Na costa leste dos EUA — Massachusetts, Rhode Island, Connecticut — e na Califórnia, as festas do Divino organizadas pelas irmandades portuguesas enchem salões e igrejas entre maio e setembro. No Havaí, a tradição chegou com os trabalhadores açorianos das plantações de cana no fim do século XIX e nunca mais parou.
No Canadá, Toronto e arredores concentram dezenas de irmandades ligadas a ilhas específicas: cada império da diáspora é, no fundo, uma ilha dentro da cidade — sotaque, receitas e bandeira da terra natal.
| Destino | Como vive a festa |
|---|---|
| Rio Grande do Sul (Brasil) | Irmandades centenárias ligadas ao Pico e à Terceira; leilões e sopas à moda açoriana |
| Nova Inglaterra (EUA) | Festas de bairro com coroação, parade e ceia comunitária nas cidades portuguesas |
| Califórnia (EUA) | Salões do Divino e capelas históricas das irmandades do Vale de São Joaquim |
| Havaí (EUA) | Tradição dos imigrantes da cana-de-açúcar, com malassadas e sopas ao domingo |
| Canadá | Dezenas de irmandades em Toronto, cada uma ligada à sua ilha de origem |
Os congressos que unem as pontas
Os congressos internacionais sobre as festas do Divino — como o realizado na Terceira em 2008, com visitas ao Museu do Vinho dos Biscoitos e painéis sobre a diáspora — tornaram-se o ponto de encontro das comunidades. Estudiosos de Coimbra, irmãos do Brasil e dos Estados Unidos, mordomos e foliões trocam memórias e projetos.
- A diáspora financia coroas, impérios e obras nas freguesias de origem.
- Muitos emigrantes regressam no verão "a pagar promessas" na sua ilha.
- As novas gerações, nascidas fora, aprendem a festa como língua afetiva da família.
Uma pátria de espírito
O culto do Divino prova que uma festa pode ser uma pátria. Onde houver uma coroa de prata, uma bandeira vermelha e uma panela de sopa ao lume, há um pedaço dos Açores — seja em Ijuí, em Fall River, em San Diego ou em Honolulu. O imperador, como sempre, é o mesmo.