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Permanncia do Culto do ES nos Aores

Sobre a permanncia do culto do Esprito Santo nos Aores

Aps a introduo do culto do Esprito Santo nos Aores, sob a forma de Imprio, em finais do sculo XV, as razes para a sua permanncia devem-se ao facto destas festas serem as que melhor permitiram o entendimento entre os diversos povoadores e se enquadram num esprito de solidariedade necessrio na luta contra as dificuldades; pela simplicidade do elemento material necessrio; pelo peso da hierarquia no ser to forte nas represses devido ao papel evangelizador dos franciscanos e incorporao destes valores pelo clero local; pela resistncia dominao poltica filipina, na afirmao das tradies locais; pela construo de pequenos edifcios para imprios e pelo apoio da emigrao aoriana.A decadncia do culto, a que actualmente se assiste, deve-se passagem de uma cultura agrria a uma cultura urbana feita de servios e de consumo, e porque as formas de solidariedade vo-se transferindo das famlias e vizinhana para a responsabilidade estatal, medida que crescem sentimentos e prticas individualistas e se debilita (ou depura) a f.

Tal como na Escritura, tambm no culto popular do Esprito Santo, h uma iconografia prpria. Como smbolos, destaca-se a coroa, o ceptro, o basto, a bandeira, o imprio (edifcio) e o menino (inocncia), que tm a ver com o exerccio da soberania e a garantia da justia, atribudas ao Esprito Santo.

Os milagres atribudos ao Divino Parclito querem mostrar que o Esprito Santo quer ser adorado com a festa do Imprio, pela razo de nela se incluir o jantar aos pobres. estranha pergunta porque que o Esprito Santo vingativo?, devemos responder com a leitura dos milagres que Lhe so atribudos e com o no cumprimento dos rituais do Imprio, pois o que a Deus e aos pobres se deve e promete no se Lhes deve regatear.

No pronunciamento dos bispos ao servio dos Aores, nesta matria, podemos marcar quatro perodos com os seus estilos prprios. No primeiro (sc. XVI), tnue e tolerante, temos reparos para que no se exagere nos gastos, evitem as supersties, no se faa as festas fora do tempo prprio, que haja apenas um imperador em cada lugar, bem como advertncias quanto ao tempo e ao comportamento na igreja dos fiis envolvidos nos rituais.

A reforma tridentina (sc. XVII e XVIII) far-se- sentir com toda a sua pujana implicando sobretudo com as cantigas e danas dos folies nas igrejas, proibindo a prpria confraria de ter gastos com os jantares, os ministros eclesisticos irem a casa dos imperadores assisti-los, comer nos templos, coroar antes de acabar a missa, imprios de mulheres, bailes e jogos ilcitos, existncia de mais de um imprio em cada dia e localidade, o ministro dar a beijar os evangelhos e a paz ao imperador, aos homens estar na igreja com a cabea coberta e as mulheres no, etc. Este o tom das reprovaes.

A partir do sculo XIX, fala-se em geral de abusos, excessos e pecados que se cometem a pretexto de festejar o Esprito Santo. Probe-se que saiam imagens dos santos a acompanhar o cortejo das coroaes, a intromisso dos procos nos negcios temporais das irmandades, a bno de coroas que no sejam de prata, que se ande com a mesma a fazer peditrios pela rua, imprios dirigidos por crianas, coroaes em casa, mudanas de coroa noite ou que se coma no prprio imprio.

No sculo XX, estando o culto aceite, as observaes so de carcter disciplinar e administrativo, atingindo o pico crtico nos anos 60, mudando para um tom positivo e pastoral com o actual bispo, no final do sculo. Conclumos que h certas represses, proibies, advertncias, ameaas, mas no quanto essncia do culto e, sobretudo h persistncia e resistncia populares. No raros aparecem, antes das correces, elogios ao fundamento e razo de ser de um culto to genuinamente cristo. No h intervenes doutrinais de fundo, que levem a proibir esta prtica. O culto popular nasce em ambiente cristo, tem ideias crists e realizado por comunidades crists, com uma roupagem cultural e social sob a qual se esconde uma atitude bsica de f no Esprito Santo alma e motor da Igreja.

Pe. Hlder Fonseca Mendes, Vigrio Geral da Diocese de Angra

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=59708